Uma lógica que persiste
- Roberta Rocha

- 24 de mar.
- 2 min de leitura

Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, de @adriananegreiros , é um livro que desloca o olhar sobre o cangaço brasileiro ao retirar dele a lente da romantização e recolocar no centro aquilo que sempre esteve presente em guerras, revoluções e crises: a violência contra as mulheres.
Ao revisitar essa história, a autora não transforma as mulheres em protagonistas heroicas, como muitas narrativas, mas também não as reduz ao apagamento.
Adriana compartilha, em detalhes difíceis de ler, a experiência das mulheres no cangaço, marcada por relações de poder nas quais a presença feminina está profundamente atravessada por coerção, controle masculino e estratégias de sobrevivência.
Ler este livro, em um tempo em que a violência contra a mulher vem sendo cada vez mais noticiada, estudada e exigindo respostas mais efetivas, nos confronta com algo incômodo:
O quanto ainda é possível relativizar a violência que sofremos?
Quantas de nós ainda terão que morrer para que essas histórias sejam lidas a partir de uma perspectiva estrutural, e não moral?
O que aconteceu no cangaço, há quase cem anos, não pode ser lido como exceção.
Ao contrário, revela a continuidade e a manutenção de uma estrutura violenta e misógina.
A romantização de homens violentos, a naturalização da violência, a disputa entre mulheres mediada pelo olhar masculino e a conformidade como estratégia possível de sobrevivência aparecem no livro não como episódios isolados, mas como parte de uma lógica que persiste.
Por isso, a leitura incomoda.
Provoca.
E é justamente aí que está a força do livro:
não apenas em contar outra versão da história,
mas em nos convocar a perguntar a serviço de quem se sustenta a manutenção e a relativização do ódio contra as mulheres.
Roberta Rocha
Psicóloga feminista
Idealizadora do Clube do Livro Sobre Nós, Mulheres e da @teiadesaberespsi




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