Moça, você é linda
- Roberta Rocha

- 15 de abr.
- 2 min de leitura

Estes dias, me olhando no espelho, me peguei não gostando do que via.
O incômodo ficou em mim por dias.
Num desses encontros, lá estava eu, não gostando de mim.
Não me conformava em perceber que, apesar de saber sobre a pressão estética acerca da qual somos socializadas desde meninas, estava ali julgando as transformações do meu corpo aos quarenta e dois anos.
Não houve autocompaixão.
Então, da falta, caí no excesso da comparação com outros corpos.
Não demorou muito para o algoritmo me oferecer soluções.
Dentro da lógica do sistema patriarcal capitalista, é simples: você só não faz porque não quer. Solução tem.
Pronto.
Eu estava rendida.
Arrependida de ser quem sou.
Foram meses de conflito interno.
Não vou fazer nada com isso, não vou ceder a essa opressão.
Eu via no espelho, pelo filtro da opressão, algo no meu corpo que precisava ser cuidado de forma isolada.
Não reconhecia para além disso.
Foi numa conversa, sobre outra temática, em uma comunidade de mulheres feministas da qual faço parte, que apareceu: estamos dentro do sistema.
Nosso olhar também é atravessado por ele.
Nem sempre dá para controlar.
Mas reconhecer as faltas talvez ajude a não cair nos excessos que ele produz.
Algo, nesse momento, se deslocou.
Há uma fase chegando: a perimenopausa, já anunciada pela minha ginecologista.
A pressão para cabermos em um padrão, além de nos adoecer, nos afasta do que é necessário.
Lembrei do que acho bonito em mim:
fazer o que é preciso com os recursos que tenho.
Ainda precisei passar pela raiva.
A raiva de reconhecer que hoje consigo cuidar da minha saúde porque tenho alguns privilégios que me permitem incluir esse cuidado na minha rotina.
E eu vou com raiva mesmo.
Agora, não mais de mim.
Assim, não esqueço:
cuidar de si é um direito que ainda não é dado. Mas, com raiva, pode ser reivindicado.
Roberta Rocha
Psicóloga feminista




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