"Não fossem as sílabas do sábado" no Clube do Livro
- Roberta Rocha

- 12 de fev.
- 2 min de leitura

Tenho uma relação de amor e ódio, amódio, como digo para minha filha, Maria, com os livros da Mariana Salomão Carrara.
Confesso que tive medo de ficar tão sensibilizada quanto fiquei com o primeiro livro que li dela. Mas também sabia que haveria o encontro do clube para compartilhar e dissolver possíveis excessos, angústias e fantasias.
Em Não fossem as sílabas de sábado, Ana fica viúva enquanto está grávida. Ela narra o luto imersa no que poderia ter sido, mas não foi, ainda que nada garantisse que seria como imaginava.

A morte tem disso. Nos lança em fantasias na linha tênue entre o nada que será e o tudo que supomos que seria.
Há também Madalena, viúva no mesmo acontecimento. A morte do marido dela causa a morte do marido de Ana. Dois lutos. Uma narrativa que se organiza pela perspectiva de Ana, deslocando Madalena para o lugar de culpada e deixando para Catarina, filha de Ana, o lugar de salvadora. Mas no luto de Ana não cabe salvação.
A relação entre essas três mulheres é atravessada por ambivalências, culpas, deslocamentos e uma ambiguidade que se instala e permanece.

A repetição da narrativa me incomodou. Instalou um ritmo mais denso na minha leitura. Curioso, já que na clínica ela faz parte da elaboração. No diálogo, tento não me apressar.
Refleti sobre o luto pelo meu pai. Com o tempo, a vida se sobrepôs. Encontrei formas de tornar a ausência compatível com o viver, escrevendo, por exemplo.
Mas parecia que Ana queria permanecer nesse ponto. Como se fosse final.
Talvez se não tivesse Madalena e Francisca ela não teria conseguido se entregar. Há mulheres que não podem parar. Classe e raça atravessam até o direito de sofrer.
Viver o luto como Ana parece viver também é um privilégio.
Ao terminar a leitura, senti esperança de que Ana pode ter começado a transformar o ponto que parecia final em ponto de partida.
Talvez seja isso que me prende aos livros da Mariana. Eles me desorganizam.
Entre o amor e o ódio, escolho ler.
Roberta Rocha
Psicóloga | Idealizadora do clube do livro sobre nós, mulheres




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