É quase certo que aquilo que nos atravessa, nos une
- Roberta Rocha

- há 6 dias
- 2 min de leitura

Gosto de histórias de mulheres contadas por elas mesmas. Ainda que sejam de outro tempo, outra localidade e até cultura, é quase certo que aquilo que nos atravessa, nos une.
A escrita da Annie Ernaux mexe comigo em diferentes lugares. Ela escreve como quem fala, de um jeito que me convida a ler como se estivesse ali com ela, frente a frente, escutando.
Contar sobre si publicamente requer muita coragem. Há algo de subversivo em se dizer em primeira pessoa. Hoje, em tempos de muita gente falando de si nesse lugar de performance, talvez isso já não soe tão disruptivo. Mas no tempo de Ernaux não era assim.
No livro A outra filha, o que me pegou foi a lacuna de dor e a impossibilidade de reparação que os não ditos podem causar nas famílias. Isso me toca porque, como terapeuta de família, vejo como essa “erva daninha” se espalha, ocupando lugares que poderiam ser mais floridos e nutridos de afeto e diálogo.
Annie conta como sua vida se fez quando descobriu que teve uma irmã mais velha, que morreu aos seis anos e que também foi, de certa forma, morta na história.
Como se mantém viva alguém que não é lembrada? Para onde uma ausência desloca uma presença? Quem ela poderia ter sido se os pais deixassem essa irmã existir na sua vida?
Sem respostas dos pais, Annie cria hipóteses. E, sem uma antítese, essas hipóteses acabam se confirmando nos seus próprios diálogos internos compartilhados na sua escrita em forma de carta para sua irmã.
Ainda assim, como os pais, ela escolhe sustentar esse segredo familiar, não confronta os pais.
A irmã ganha vida na escrita, ora como protagonista, ora como figurante que incomoda. E a falta de lugar dessa irmã também deixa mais vulnerável o lugar de pertencimento da própria Annie.
A narrativa me tocou muito. Me faz pensar que aquilo que tentamos excluir da vida sempre volta, pedindo inclusão, lembrando do direito de ser, de existir, de ter lugar.
Não sei se foi a intenção da autora dar esse lugar à irmã com sua escrita, mas fico com essa possibilidade delicada e potente.
Roberta Rocha
Psicóloga feminista
Idealizadora do clube do livro: sobre nós mulheres




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